Como a subcontratação funciona no transporte de cargas
No transporte rodoviário, é muito comum que uma transportadora (a contratante) assuma um contrato com um embarcador e, em seguida, subcontrate outra empresa para executar parte ou toda a operação. A subcontratante — sua ETC — recebe a carga, opera com seus próprios veículos e motoristas, e entrega no destino.
Nesse modelo, existem pelo menos dois contratos distintos:
- O contrato entre o embarcador e a transportadora contratante;
- O contrato entre a transportadora contratante e sua ETC subcontratada.
Cada contrato representa uma operação de transporte remunerado. E é justamente essa distinção — entre quem contrata e quem executa — que a MP 1.343/2026, hoje Lei nº 15.485/2026, passou a abordar de forma mais explícita nas regras do CIOT.
O que mudou para a subcontratada com a MP 1.343/2026
Antes da MP 1.343/2026, muitas ETCs subcontratadas operavam sem registrar CIOT, com base em dois entendimentos:
- A obrigação de emitir o CIOT era da contratante;
- O CIOT se aplicava apenas à relação entre ETC e TAC (Transportador Autônomo de Cargas).
A MP alterou esse cenário: a ETC que efetivamente executa a operação remunerada com frota própria passou a integrar as hipóteses de registro — inclusive quando foi subcontratada por outra transportadora. O critério deixou de ser apenas a contratação do autônomo.
Só que a execução com frota própria não é o critério final. Existe uma condição que inverte a responsabilidade — e é ela que decide, na prática, quem emite.
A regra dos 3 veículos: o que realmente decide quem emite
A Resolução ANTT nº 5.862/2019, no art. 1º-A (incluído pela Resolução ANTT nº 6.078/2026), organiza a responsabilidade em duas hipóteses (regra hoje também no art. 7º, §§ 2º e 3º da Lei 13.703/2018, na redação da Lei nº 15.485/2026):
- §1º — contratou TAC ou TAC equiparado? O CIOT é responsabilidade do contratante/subcontratante;
- §2º — não há TAC nem equiparado na ponta? O CIOT é da ETC que efetivamente realiza a operação.
O divisor de águas é a regra dos 3 veículos: uma ETC com até 3 veículos de carga registrados no RNTRC se equipara a TAC — art. 5º-A da Lei 11.442/2007, regulamentado pelo art. 8º da Portaria SUROC nº 6/2026 (cooperativas de transporte — CTC — são equiparadas independentemente da frota). A contagem vale no momento do registro do CIOT, não na assinatura do contrato.
Por que isso muda tudo para a subcontratada: se a sua ETC tem até 3 veículos e foi subcontratada, ela se equipara a TAC — e a obrigação de registrar o CIOT não é sua: é de quem subcontratou. Se tem 4 ou mais, aí sim a responsabilidade é sua.
Atenção a um ponto que costuma ser mal interpretado: equiparado não é dispensado. O CIOT continua sendo obrigatório na operação — o que muda é quem responde por ele. Havendo acordo entre as partes, a contratante pode delegar a geração operacional do CIOT à ETC equiparada (Portaria SUROC nº 6/2026, art. 3º, §1º), mas a delegação transfere a tarefa, não a responsabilidade: a obrigação legal e a eventual multa continuam com a contratante.
Os cenários principais na prática
| Cenário | Frota da sua ETC no RNTRC | Quem registra o CIOT |
|---|---|---|
| Embarcador contrata sua ETC diretamente | 4 ou mais veículos | Sua ETC (§2º) |
| Embarcador contrata sua ETC diretamente | Até 3 veículos (equiparada a TAC) | O embarcador contratante (§1º) |
| Transportadora A subcontrata sua ETC | 4 ou mais veículos | Sua ETC (§2º) |
| Transportadora A subcontrata sua ETC | Até 3 veículos (equiparada a TAC) | Transportadora A (§1º) |
| Sua ETC subcontrata um TAC | Indiferente | Sua ETC (§1º — regra clássica) |
| Transportadora A contrata TAC diretamente | Indiferente | Transportadora A (§1º) |
O critério tem duas camadas: primeiro se pergunta se há TAC ou equiparado na ponta que executa; só depois entra a execução com frota própria. Por isso o tamanho da frota registrada no RNTRC é o dado que decide.
Resumo prático: conte seus veículos de carga no RNTRC. Até 3 — sua ETC se equipara a TAC e quem responde pelo CIOT é quem contratou você. 4 ou mais — executando a operação com frota própria, o registro é responsabilidade da sua empresa. Em qualquer um dos casos o CIOT tem de existir: equiparado não é dispensado.
Exemplos concretos
Exemplo 1 — Subcontratação simples
A Transportadora Alfa tem contrato com uma indústria em Campinas/SP para entregar soja em Santos/SP. A Alfa subcontrata sua ETC (Transportadora Beta) para executar o transporte. A Beta usa seu próprio veículo e motorista CLT. Agora o desfecho depende da frota da Beta:
- Beta tem 4 ou mais veículos: não há TAC nem equiparado na ponta. Aplica-se o §2º e a Beta registra o CIOT, repassando o número à Alfa para vinculação no MDF-e.
- Beta tem até 3 veículos: a Beta se equipara a TAC. Pelo §1º, a responsabilidade é da Alfa — que pode até delegar a emissão à Beta por acordo, mas continua respondendo pela obrigação e pela multa.
Exemplo 2 — Cadeia com TAC
A mesma Alfa subcontrata sua ETC (Beta), mas desta vez a Beta não tem veículo disponível e contrata um TAC autônomo para fazer a entrega. Nesse caso, a Beta está contratando um TAC — e a obrigação de registrar o CIOT pela relação Beta-TAC segue a regra clássica, que permanece válida.
Exemplo 3 — ETC contratada diretamente
Uma indústria em Ribeirão Preto/SP contrata sua ETC diretamente (sem intermediário) para transportar insumos para Sorocaba/SP. Sua empresa opera com frota própria. Com 4 ou mais veículos, o registro é da sua ETC (§2º). Com até 3 veículos, sua ETC é equiparada a TAC e quem responde pelo CIOT é a própria indústria contratante (§1º) — muitos embarcadores ainda não sabem disso e cobram o CIOT da transportadora, o que vale uma conversa antes de fechar o frete.
A questão da contratante: ela precisa saber do seu CIOT?
Precisa, e por um motivo simples: uma operação de transporte tem um único CIOT. Ele não é emitido "por empresa" — é emitido por operação. Por isso as duas pontas têm de combinar quem registra, antes da viagem.
Quem quer que registre, é a contratante que emite o MDF-e e precisa vincular o número do CIOT nele — obrigatório desde 01/06/2026. Ou seja: mesmo quando o registro é seu, o número tem de chegar até ela. E quando sua ETC é equiparada a TAC (até 3 veículos), é ela quem responde pelo registro e pela multa em caso de irregularidade.
Na prática, muitas contratantes incluíram a apresentação do número do CIOT no processo de liberação de pagamento à subcontratada. Se você é a contratante nessa relação, vale ler quem gera o CIOT na subcontratação pelo seu lado da mesa.
O que fazer se a contratante não enviar o DACTE
O DACTE — Documento Auxiliar do CT-e — é a base para emitir o CIOT. Sem ele, não é possível preencher os dados da operação corretamente. O DACTE é um documento obrigatório e deve acompanhar a carga.
Se a contratante não fornecer o DACTE antes da saída do veículo:
- Solicite formalmente o documento antes de aceitar a operação;
- O CT-e é emitido pela contratante — peça o PDF do DACTE por e-mail ou WhatsApp;
- Não inicie a viagem sem o DACTE em mãos: ele é necessário tanto para o CIOT quanto como documento fiscal da carga.
O fluxo correto na subcontratação
- Antes de tudo, defina quem registra: conte os veículos de carga da subcontratada no RNTRC. Até 3, a responsabilidade é da contratante; 4 ou mais, é da subcontratada;
- A transportadora contratante envia o DACTE da carga que sua ETC vai transportar;
- A parte responsável usa esse DACTE como base para registrar o CIOT da operação na ANTT — veja o passo a passo da emissão;
- O registro deve ocorrer antes do início da viagem;
- O número do CIOT é informado no MDF-e antes de emiti-lo (exigência desde 01/06/2026 — Ajuste SINIEF 03/2026). Se quem registrou foi a subcontratada, ela repassa o número à contratante nesta etapa;
- Veículo sai com a carga com CIOT e MDF-e emitidos corretamente.
O que sua ETC precisa para emitir
- Certificado digital A1 (ICP-Brasil) — o mesmo da NF-e/CT-e, cadastrado uma única vez na plataforma;
- RNTRC ativo junto à ANTT;
- DACTE em PDF da operação fornecido pela contratante.
Com esses três itens, é possível emitir no mesmo dia, inclusive pelo celular — sem instalar nenhum aplicativo. O processo leva minutos.
Dica operacional: combine com sua contratante que o DACTE seja enviado com antecedência suficiente para que o CIOT seja emitido antes da saída do veículo. A maioria das contratantes já adaptou esse processo após a MP 1.343/2026 (hoje Lei nº 15.485/2026).
Perguntas frequentes
Fui subcontratado por outra transportadora. Quem emite o CIOT?
Depende do tamanho da sua frota registrada no RNTRC. Com até 3 veículos de carga, sua ETC se equipara a TAC (art. 5º-A da Lei 11.442/2007, regulamentado pelo art. 8º da Portaria SUROC nº 6/2026) e a responsabilidade pelo CIOT é de quem subcontratou você (art. 1º-A, §1º da Resolução ANTT 5.862/2019, incluído pela Res. 6.078/2026). Com 4 ou mais veículos, não há equiparado na ponta e o registro é da sua ETC, que executa a operação (§2º). Em ambos os casos o CIOT precisa existir: equiparado não é dispensado.
A contratante já emitiu CIOT. Preciso emitir outro?
Não. Uma operação de transporte tem um único CIOT. Se a contratante já registrou — o que é o correto quando sua ETC é equiparada a TAC (até 3 veículos) — você não deve emitir um segundo para a mesma viagem. Peça o número dela e confirme que consta no MDF-e. Emitir em duplicidade gera dois registros para a mesma operação na ANTT e custo desnecessário.
Uso o DACTE da contratante para emitir meu CIOT?
Sim. O DACTE da carga que você vai transportar é a base para emitir o CIOT da sua operação. A plataforma lê o PDF e preenche os campos automaticamente.
O que fazer se a contratante não enviar o DACTE?
O DACTE é obrigatório e deve acompanhar a carga. Solicite-o antes de aceitar a operação. Sem ele, não é possível emitir o CIOT nem iniciar a viagem em conformidade.
Se minha ETC contrata um TAC para executar, quem emite o CIOT?
Quando sua ETC contrata um TAC, a obrigação de registrar o CIOT é da sua ETC — essa é a regra clássica, que permanece válida. O CIOT documenta a relação de remuneração entre sua empresa e o autônomo.